UM OLHAR SOBRE A DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL
A desigualdade social existente no Brasil é derivada do processo de colonização ao qual o país foi submetido pela coroa portuguesa e posteriormente ao estabelecimento de uma sociedade burguesa branca e escravocrata nos moldes das sociedades européias de sua época. A colonização portuguesa no Brasil, assim como a espanhola, a holandesa e a francesa em outros países sul-americanos, caribenhos e africanos, tinham como único objetivo a expropriação dos recursos de maior valor em benefício único e exclusivo de suas respectivas coroas.Para estas terras, eram mandadas pessoas excluídas de seus países de origem, que aqui chegavam não com o intuito de desenvolver uma nação, mas somente de acumular bens suficientes para que pudessem ascender socialmente sendo, pois, respeitados posteriormente em sua terra natal. Toda a riqueza aqui gerada era invariavelmente revertida para Portugal ou para outros países europeus, fosse por meios legais ou por meios ilícitos, o famoso “jeitinho”. Desde os primórdios do país já se estabeleceu uma hierarquia social, onde em primeiro lugar estavam os europeus, em um segundo patamar, entretanto muito abaixo em relação de importância aos primeiros, os nativos amigos, em grande parte da etnia Tupi, habitantes do litoral e que se submeteram rapidamente ao domínio português, e em terceiro lugar, no ultimo estágio de importância, na verdade nenhuma importância, as etnias do interior do país, consideradas inimigas da grande nação Tupi e por essa, perseguidos e exterminados com ajuda dos portugueses durante séculos.Num segundo momento, dada à ineficiência da utilização de mão de obra indígena com a introdução de outras formas de geração e exploração de recursos, como a monocultura e a exploração de minério, e com o intuito de se fomentar outras formas de acúmulo de riquezas dos países colonizadores, houve o afluxos de populações advindas da África e tem se a partir desse ponto o alvorecer de um sistema escravocrata baseado na exploração do trabalho escravo das populações africanas aqui aportadas.O trabalho de tais homens e mulheres servia de subsídio e fomento para a até então incipiente elite brasileira. Um outro processo nesse momento estava em curso do outro lado do atlântico, a consolidação da burguesia. Quando o Brasil passa ao status de vice reino e recebe a Família Real Portuguesa, a pequena elite brasileira passa a ter maior importância na corte. Com a consolidação da burguesia européia os processos de expropriação e acumulo de capital tem um impulso muito forte e a já abastada elite brasileira aproveita o momento e enriquece ainda mais, aumentando a distância em relação às classes mais baixas.Finalmente temos a independência do País e com ela uma abertura ainda maior a exploração externa dos recursos nacionais, a burguesia já totalmente consolidada acumula ainda mais capital e se firma como a elite nacional. Já nesse momento a exclusão social era latente, os nativos eram considerados vagabundos, expulsos de suas terras, aculturados de forma a tornarem – se facilmente manipulados, os mestiços eram considerados superiores a estes, entretanto tinha um papel de pouca importância vivendo condicionados a subempregos. Os negros continuavam mantidos e submetidos à escravidão.Com abolição da escravatura em 1888, os negros agora livres, não obtinham, e talvez até nem fosse seu desejo, trabalhos assalariados com seus antigos patrões, os quais em um segundo momento, “importaram” mão de obra assalariada da Europa. Começava então a se formar o retrato de exclusão social mais próximo do qual presenciamos no país hoje.A estratificação social se torna nítida. Na base da pirâmide as populações de origem indígena e africana, vivendo em condições precárias de existência, sem terra, sem capital e sem trabalho, uma classe intermediária advinda da segunda onda migratória européia, e no topo a burguesia e descendentes de famílias nobres detentoras do capital e da propriedade. Um processo cruel, uma pirâmide onde quase não existe intercâmbio entre seus estratos sociais.Já no século XX com o início da industrialização do país e o desenvolvimento e utilização de novas tecnologias agrícolas começa o processo de êxodo em direção aos centros urbanos, culminando no caos social evidente nas grandes cidades nos dias de hoje. As cidades aumentam ainda mais a desigualdade social uma vez que o pequeno espaço destinado a uma pessoa não permite, por exemplo, o desenvolvimento de algum tipo de atividade de subsistência. A desigualdade se apresenta nos grandes centros, ainda mais acentuada por meio da exclusão. Pessoas abaixo da linha da miséria, milhões de pessoas passando fome, um menino descalço em um farol pedindo uma moeda.È interessante ressaltar nesse momento, que a desigualdade social não é um processo único e exclusivo de classes sociais, também pode ser observado nas relações de gêneros, etnias, religiões e outros compartimentos da sociedade. Entretanto, dado a esse fato, grande parte desses aspectos de desigualdade se refletem também nas relações de classes sociais.
O POVO BRASILEIRO E O "JEITINHO"
O povo brasileiro é estigmatizado pelos rótulos do futebol, do carnaval e do jeitinho. Tais definições são lugar comum na sociedade e tristemente são fomentadas pela mídia de forma irresponsável dentro e fora do país. Sim, o povo brasileiro gosta de futebol, assim como quase todos os povos do mundo também gostam, temos os melhores jogadores, entretanto temos uma desorganização latente nas entidades vinculadas ao esporte, da mesma forma que somos desorganizados em relação à saúde, educação, ciência e tecnologia, segurança pública e uma vasta gama de outros setores tão importantes quanto estes últimos e sem dúvida, muito mais importantes que o futebol. Já em relação ao carnaval somos organizados, afinal a presença do Estado é mínima nesse caso. No Rio de Janeiro e em São Paulo grande parte do dinheiro empregado no espetáculo parte de organizações lideradas por contraventores, banqueiros do jogo do bicho e até narcotraficantes. Na Bahia tudo é lindamente organizado pelas redes hoteleiras e pelas redes de comunicações apadrinhadas do senador Antônio Carlos Magalhães, até os músicos pedem a benção do padrinho em seus shows sobre o trio elétrico, assim como as escolas de samba pedem a benção de seus “patronos” bicheiros antes de entrarem na avenida, fruto do paternalismo ao qual o povo brasileiro se habituou em seus pouco mais de quinhentos anos de história.O jeitinho, apesar de ser vangloriado pelos ufanistas de plantão como legitimamente brasileiro, não deve ser encarado como tal. Na verdade o jeitinho é a reação de uma sociedade advinda de um processo de colonização calcado na expropriação, na escravatura, no acúmulo de capital. Em uma colônia onde se vê todas as riquezas sendo levadas para um pequeno número de pessoas do outro lado do mundo à custa do trabalho e do sofrimento da grande maioria com condições mínimas de existência, nada mais natural do que o surgimento de artimanhas que possibilitem um meio de ludibriar as autoridades e os donos do poder em detrimento de uma melhor condição de vida.Nesse aspecto talvez nem seja a ambição financeira o fator preponderante, mas sim o desejo de vingança, contido e discreto, residente em cada um dos cidadãos que se sentem subjugados, apenas uma massa de trabalho, um número em meio a vários outros, um rosto na multidão. Em vários países colonizados o tal “jeitinho” se apresenta, basta ver as condições dos países africanos e de nossos vizinhos da América Latina. Todos unidos pelas mazelas geradas pelas potências colonizadoras e usando seu “jeitinho”, sua “milonga” ou seu “approach” para obter algum tipo de vantagem.O jeitinho se prolifera por todas as esferas sociais, e tem seu lado mais deplorável revelado por meio da corrupção nas esferas governamentais, um grato presente herdado do sistema de organização extremamente burocrático de nossos colonizadores portugueses, um problema congênito, uma epífita enraizada nas estruturas que deveriam servir como exemplo de credibilidade a ser seguido pelo seu povo, as instituições democráticas, representantes supremas da nação contaminadas pelo jeitinho.Mas, o povo brasileiro em sua grande maioria não é isso! O povo brasileiro é aquele que levanta às quatro horas da manhã e pega três ônibus diferentes para chegar ao trabalho, vai para a roça sob o sol escaldante, ganha pouco, não tem acesso a serviços de qualidade advindos do Estado que sustenta à custa de seu trabalho, não é respeitado pelo seu patrão, quer ver seus filhos com uma vida melhor e luta para isso, é honesto, tem fé, é diverso. Uma miscelânea de tons, sotaques e costumes, tristemente submissa, mesmo que disso não saiba, ao paternalismo arcaico do Estado, das igrejas, dos patrões e da própria sociedade como um todo, uma massa de manobra submetida ao controle social da ordem e progresso positivista da nação brasileira.
AS DIFERENTES REALIDADES SOCIAIS
A realidade social é estritamente relacionada à sociedade da qual é fruto, é resultado de um arcabouço de referenciais históricos, culturais, geográficos, e climáticos e de valores éticos, morais, religiosos, econômicos, sociais e estéticos. Portanto, é extremamente difícil comparar realidades de diferentes sociedades, uma vez que existe a tendência etnocêntrica a se enxergar o outro a partir de olhos condicionados a enxergar a si mesmo, como exemplo de tal fato, podemos citar a grande dificuldade das civilizações ocidentais em entender aspectos de sociedades estabelecidas sobre outros pilares sociais, como os países muçulmanos regidos por fortes preceitos religiosos diferentes da concepção judaico-cristã ocidental; povos africanos e suas sociedades tribais, que tiveram seu modelo de organização social forçosamente desmantelado pelo colonialismo europeu, gerando um sem numero de rebeliões, revoltas e guerras civis.Como a realidade social de cada sociedade é ancorada nos preceitos da mesma cabe - nos questionar a veracidade de idéias atribuídas ao senso comum no que tange o entendimento dessa realidade, principalmente na comparação entre sociedades distintas. Como é possível explicar uma realidade quando se vive em outra completamente diferente? Seria possível um pesquisador de meia idade, anglo-saxão, protestante, nascido e criado no Texas, entender a realidade social das adolescentes cubanas, negras e praticantes de vodu? Poderiam essas adolescentes, entenderem a complexidade da realidade de crianças palestinas moradoras da faixa de Gaza?A realidade social de uma sociedade, assim como a cultura desta, não pode ser avaliada de forma a estabelecer parâmetros de comparação, ou seja, se ela é melhor ou pior que outra, deve ser encarada simplesmente como diferente. Podem ser usados alguns artifícios quantitativos favorecendo algumas conclusões sobre alguns aspectos, como índices de desenvolvimento humano, índices de mortalidade e natalidade, taxas de analfabetismo, no entanto a realidade não poderá ser comparada em sua totalidade, uma vez que como já citado anteriormente, é um processo intrínseco a cada sociedade.A realidade, também pode ser encarada com certa relatividade dentro de uma mesma sociedade, na medida em que cada um dos compartimentos vinculados a esta pode conceber a realidade de maneira antagônica aos outros, de acordo com a classe social, o gênero, o grupo étnico, o nível de conhecimento, as diversas religiões e ainda as diversas subculturas existentes em uma mesma sociedade. A realidade de um garoto de dez anos de idade, morador de um bairro de classe média alta, será para este e para seu grupo de convívio, bem diferente da realidade social na qual vive um garoto da mesma idade morador de uma comunidade pobre em uma grande cidade, que por sua vez será diferente de outro garoto de mesma idade e mesma classe social que more num acampamento do MST.Tais “realidades distintas” dentro de uma mesma sociedade devem ser encaradas relativamente, como já mencionado, uma vez que apesar de existirem várias formas de se concebê-la, de acordo com o grupo do qual se faz parte, a “realidade do todo” social pressiona em igual amplitude a “realidade das partes”, uma vez que apesar da existência desses diversos compartimentos sociais, todos estão alocados em um grupo maior.Fatalmente a realidade social do “garoto do MST” em algum momento se confrontará com a realidade do “garoto da favela”, seja no instante em que ambos se deitarem com fome para dormir ou quando forem auxiliados por algum tipo de organização não governamental ou projeto social, já o “garoto de tênis Nike” por sua vez, poderá ter sua realidade confrontada com a realidade do “garoto da favela” seja em um campinho de futebol limítrofe entre os barracos e o asfalto, ou com uma arma na mão em alguma esquina da metrópole.

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