Tuesday, December 05, 2006

Atividades de Sociologia Geral e da Comunicação.

SEGUNDA EDIÇÃO DO EXPRESSO CAIPIRA: EDIÇÃO TEMÁTICA ELEIÇÕES 2006

Concepção geral e editoria: Tárcio M. Fabrício

EDITORIAL E MATÉRIAS

Editorial

O jornalista Franklin Martins, em seu livro Jornalismo político, afirma que a partir do estabelecimento da obrigatoriedade do horário eleitoral gratuito, a imprensa brasileira deixou de ter um caráter panfletário; até então era muito comum que os jornais declarassem apoio formal ao candidato que defendesse interesses comuns aos seus. O jornalista considera essa transição como sendo um importante amadurecimento político.Entretanto, outro aspecto deve ser considerado quando se avalia a importância da imprensa no processo democrático, e esse aspecto não pode ser encarado como positivo; o apoio velado a alguns candidatos, fato comum na mídia do país, pode ser tão ou mais virulento a reflexão política do que as manifestações explícitas. Relembrando a história recente, podemos refletir acerca da manipulação da Rede Globo e da revista Veja em favor da eleição de Fernando Collor.Na atual corrida presidencial, também podemos observar indícios claros de uma tomada de posição por parte dos grandes veículos de comunicação. O noticiário se tornou um campo de batalha, e os jornalistas correspondentes de guerra. Nessa prática, o principal objetivo de tais profissionais é o de motivar as tropas aliadas ao interesse dos seus veículos.A grande mídia consegue dessa forma, passar todo o valor ideológico das classes dominantes, utilizando as entrelinhas no processo de convencimento de seu público alvo. Nitidamente podemos observar uma quase obsessão desses veículos, em derrotar o atual governo. Essa estratégia, no entanto, parece não surtir mais o mesmo efeito que há alguns anos. A resistência de grande parte da população em acatar facilmente a tal bombardeio de informações pode levar a grande mídia a perder o pouco de credibilidade que ainda lhe resta.Essa publicação se presta a tentar informar o leitor de forma clara sem, no entanto, bradar uma pretensa imparcialidade. Temos opiniões e por mais que nos policiemos em relação à sua manifestação sempre teremos uma tendência a defender essas idéias, mesmo que de forma discreta. Não apoiamos formalmente nenhum candidato, entretanto, como forma de expressar as nossas posições, declaramos abertamente os votos individuais dos participantes da elaboração deste produto.Buscamos com isso, devolver ao leitor algo que há muito tempo lhe foi subtraído: o direito de refletir claramente acerca dos fatos, associando a forma como a notícia é apresentada, ao real posicionamento ideológico de quem a escreveu.
Tárcio M. Fabrício
Editor geral
Enfim o debate
Por Tárcio M. Fabrício
Na atual corrida presidencial, vários assuntos de interesse estratégico do país sequer foram pautados pelos candidatos. Questões debatidas em profusão anteriormente, relacionadas à política externa, meio ambiente, reforma agrária e equilíbrio de contas públicas foram relegadas ao segundo plano em detrimento das questões relacionadas às políticas sociais,como educação – tema colocado em pauta pela insistência de Cristovam Buarque- e finalmente a principal de todas; as trocas de acusações no campo ético e moral.A concentração das discussões em torno de tais assuntos empobreceu as campanhas e confundiu os eleitores; diminuiu a capacidade de reflexão em termos de conteúdo programático.A partir da conclusão óbvia de que a bandeira ética da política das mãos limpas, pregada pelo PT e por toda a esquerda brasileira durante anos já não existe, o poder corrompeu, e assim continuará enquanto uma reforma política ampla e radical não for aplicada nas nossas instituições. Até lá, por mais que se combatam práticas amorais, estas se perpetuarão por meio de qualquer grupo que esteja no poder, utilizando-se de subterfúgios para sua manutenção nessa posição.A partir de tal conclusão, podemos imaginar que após as incessantes variações sobre o mesmo tema, finalmente teremos um debate acerca das concepções verdadeiras de cada um dos candidatos. Resta saber como será o comportamento dos dois candidatos quando face – a – face. O candidato tucano, tentando adotar uma postura mais agressiva na reta final da campanha, começou a desafiar veementemente o presidente para o confronto. Entretanto, sabia que isso não aconteceria e até torcia para que não acontecesse. Por mais que desafie e tenha bons argumentos para combater o governo petista, seria muito arriscado enfrentar um político da envergadura de Lula.Lula manteve-se a todo tempo em seu pedestal de candidato favorito; em nenhum momento a sua estratégia seria participar de um debate onde levaria bala de todos os lados.O candidato do PSDB não é bem aquilo que pode se chamar de carismático, pelo contrário; já Lula tem a experiência de várias eleições e de embates diretos com políticos tão ou mais hábeis na retórica quanto o próprio. O presidente apresenta também um grande poder de reação às adversidades e adora confronto, como já demonstrado em outras campanhas. Deve estar babando para ir ao debate.No primeiro turno, Alckmin podia contar com a ferinidade de Heloísa Helena e com a articulação de idéias de Cristovam Buarque para ajudar na neutralização de Lula. Mas agora está sozinho nessa tarefa. Será que o Geraldo, tão zen e de fino trato agüenta combater o antigo sindicalista? A resposta virá em breve.Agora é preparar a pipoca, assistir a luta e torcer para que finalmente apresentem propostas concretas para o país.
O golpe da direita e o risco PT
Por Tárcio M. Fabrício

As vésperas de eleição presidencial de 2006, estourou um escândalo eleitoral de proporções não vistas desde a manipulação e edição descarada, em 1989, do debate presidencial da Rede Globo. Naquele momento, o então candidato, hoje presidente da República, despontava como favorito nas pesquisas e posterior a edição do debate presidencial, perdeu aquele pleito para a nova promessa vinda da oligarquia nordestina; o Brasil elegeria então Fernando Collor, algum tempo depois deposto por sérias acusações de corrupção.O escândalo atual começou com a prisão de alguns integrantes do Partido dos Trabalhadores durante a negociação para compra de um suposto dossiê, incriminando integrantes e candidatos do PSDB e os associando ao superfaturamento na compra de ambulância; a. partir de tal acontecimento montou-se um verdadeiro circo na mídia, onde os dois lados atiram incessantemente sem, no entanto, ajudarem no esclarecimento dos fatos. As acusações contra os petistas que tentavam comprar o dossiê com o intuito de prejudicar a candidatura de José Serra, são baseadas unicamente na origem do dinheiro apreendido com os envolvidos. Enquanto isso o PT insiste que o conteúdo do dossiê seja investigado, uma vez que pelo elevado valor envolvido o dossiê pode conter revelações bombásticas.Em meio ao verdadeiro bombardeio de informações repercutidas na mídia, fica difícil compreender e filtrar o que realmente é relevante no caso e o que é oferecido ao público como mero conteúdo eleitoreiro.Do lado do petista, os mais inflamados alardeiam uma tentativa de golpe da direita juntamente com a imprensa manipuladora; afirmam que tudo isso teria sido armado pelo PSDB com o intuito de prejudicar a candidatura de Lula, o que, na verdade realmente aconteceu, afinal, o partido do presidente não teria o menor interesse em se meter em uma encrenca dessas quando tinha a eleição em suas mãos.Do lado tucano, a tese acatada é a de que o PT utiliza-se do dinheiro público e atitudes antiéticas com o objetivo de se manter a qualquer custo no poder. Bradam aos quatro cantos que os envolvidos no caso são criminosos, e que o presidente tem envolvimento direto com tudo que acontece no seu partido.Os analistas políticos, por sua vez, insistem na tese do risco PT, isto é, devido a aproximação do partido com o Estado criou-se uma rede de relações perigosas, tanto para o governo quanto para o partido. Algumas pessoas envolvidas diretamente nas duas instituições, utilizariam seus cargos e posições para ajudar o partido. Segundo tais analistas, o PT teria criado uma estrutura tal qual um governo paralelo, onde os interesses primordiais seriam os interesses do partido, e não do país.O fato é que a prática da utilização de dossiês contra opositores políticos é praticamente uma constante nos processos eleitorais brasileiros. A “arapongagem” corre solta nos bastidores, afinal informação é poder!Vários escândalos parecidos ocorreram nos últimos anos, o dossiê Cayman, o escândalo da pasta rosa, e mais recentemente as denúncias contra a atual senadora Roseana Sarney quando esta despontava no cenário nacional como forte candidata a presidência. Curiosamente, essas acusações eram farpas trocadas entre o PSDB e o seu maior aliado, o PFL, sem nenhum tipo de envolvimento do PT, que inclusive se recusou a participar de campanhas midiáticas, que fomentassem o clima de tensão gerado por essas acusações.O mercado dos dossiês é movido pela grande massa de pessoal especializado formado pelo governo militar nos porões do SNI. Com a queda do regime, tais pessoas, peritas em obtenção e compilação de material incriminatório, se viram de uma hora para outra sem função, e o pior, sem emprego. Como não obedeciam mais ao grande líder se dispersaram, formando pequenos grupos de inteligência que atuam como mercenários, vendendo a informação a quem paga mais.Pois bem, agora com a confirmação do segundo turno, seria interessante para o presidente Lula que as investigações fossem aceleradas e os culpados punidos o quanto antes. Já para o candidato tucano seria ótimo que o processo ocorresse de forma vagarosa e pudesse ser mais explorado por mais algum tempo.Agora é esperar para ver de onde veio o dinheiro e aguardar ansiosamente o próximo dossiê em mais um capítulo do jogo de poder brasileiro.
E não é que os tucanos conseguiram.....
Por Tárcio M. Fabrício
Com a definição do segundo turno na corrida eleitoral a presidência, podemos esperar uma radicalização por parte dos candidatos do PT e do PSDB. Com o resultado das urnas o crescimento do candidato tucano Geraldo Alckmin surpreendeu em um quadro que já parecia estabilizado e que daria a reeleição ao Presidente Lula. Várias hipóteses são levantas a respeito dessa virada do tucano na última hora, a ausência de Lula no debate, a divulgação das fotos do dinheiro da compra do dossiê e a campanha midiática contra o presidente.Todas essas hipóteses são viáveis e realmente tiveram um peso na definição dos resultados, entretanto dois aspectos muito mais relevantes não são levados em conta quando se analisa o quadro eleitoral. Um deles é o preconceito, existente em uma parcela considerável da população, em relação a origem humilde do presidente e de sua relação com movimentos sociais, sindicatos e etc.Considerados aos olhos da elite e da classe média como baderneiros e vagabundos, que apenas servem para desestabilizar a ordem vigente.Foi absolutamente fácil constatar tal fato apenas abrindo nossas caixas de e-mail na semana que antecedeu a eleição. Inúmeras mensagens chegavam de todos os cantos com conteúdo panfletário desqualificando o presidente, utilizando-se dos velhos argumentos da “direitona” e que várias vezes prejudicaram o presidente e outros candidatos de perfil semelhante. - Analfabeto, burro, vagabundo - a insistência no discurso de que os sindicalistas não trabalham, etc.Atacam as posições programáticas e ideológicas do partido, com o discurso do anticomunismo, a velha história de que se você gosta de socialismo devia se mudar para Cuba, aliada a o novo discurso da existência de uma gigantesca conspiração de esquerda, capitaneada pelo Chavez, no intuito de dominar toda a América Latina. O que surpreende na verdade em todo esse discurso é imaginar como alguém em pleno século XXI pode acreditar nisso.Em primeiro lugar, o arcabouço programático e ideológico do PT é praticamente o mesmo do PSDB no que diz respeito a suas origens, sendo a história e a disputa pelo poder os grandes responsáveis pelo distanciamento que hoje se observa. Os dois partidos ao longo dos anos foram obrigados a apelar para o fisiologismo político para alcançar algum resultado, e nesse aspecto o PT se mostrou muito mais fiel ao seu ideário, afinal como pode um partido como o PSDB que se auto proclama de centro- esquerda se aliar a parcela mais linha dura da direita brasileira, no caso os coronéis do PFL.Os tucanos e os coronéis se completam perfeitamente quando vendem a imagem de políticos sérios e comprometidos com o bem-estar da população, principalmente da parcela mais rica dessa. Aquela que acata esse discurso porque só olha para o próprio umbigo, só se preocupa com o seu bem estar e não consegue se conformar com o fato de ser governada por uma pessoa ou um grupo político que não tenha passado pelas mesmas agruras, que não tenha estudado nas melhores universidades e que não saiba falar francês.O outro aspecto importante a ser levado em conta nessa disputa é o projeto de manutenção de poder do PSDB/PFL, discreto e silencioso espalhando seus tentáculos por todos os compartimentos da sociedade. O caso mais visível disso foi a alta votação alcançada pelo candidato do PSDB no estado de São Paulo.Em 12 anos de governo utilizou a máquina administrativa com maestria para fortalecer o partido principalmente no interior do estado, distribuindo cargos e nitidamente executando projetos de cunho eleitoreiro. A tão aclamada capacidade de gestão do partido também pode ser observada na quantidade de dinheiro arrecadada por este para a manutenção de seu projeto. O número de privatizações e licitações públicas realizadas de maneira um tanto quanto duvidosa deveria colocar sob suspeição a administração do estado.Na edição da Folha Ribeirão do dia 1º de outubro, o coordenador regional de campanha do PSDB fala que o número de candidatos do partido na região é o máximo permitido pela legislação, ao contrario do PT que preferiu apostar em nomes que já apresentam um histórico político. O que o PSDB busca com essa estratégia? Por que lançar vários nomes que vão concorrer entre si em um universo eleitoral restrito? A resposta é simples, com mais candidatos se obtém mais dinheiro para fomentar a campanha dos caciques e, além disso, alcança uma maior penetração nos mais variados compartimentos sociais mantendo-se a estrutura de poder.Agora com a eleição de José Serra ao governo de São Paulo viveremos mais quatro anos dessa dinastia e ao que tudo indica com chances de ser elevada a esfera federal. Estamos apenas no começo da corrida, entretanto podemos esperar chumbo grosso contra o atual presidente, uma vez que a sêde de poder do PSDB não tem limites.



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